Crise, estagnação e mudança de modelo diminuem força dos blocos no Carnaval de Salvador

Crise, estagnação e mudança de modelo diminuem força dos blocos no Carnaval de Salvador

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TRIO INDEPENDENTE: desfile sem cordas para "democratizar"

GILVAN MARQUES E RODOLFO VICENTINI
DO UOL, EM SALVADOR

O Carnaval de Salvador mudou de cara em 2018. Com a crise econômica do país, os altos custos para colocar um trio na rua e a mudança de mentalidade do folião, que está migrando para os camarotes, os blocos perderam força.

UOL teve acesso a um relatório que revela a dificuldade dos grandes blocos comerciais, que caíram de 28 para 13 entre 2010 e 2018. Quase todos eles diminuíram também a quantidade de dias em que desfilam.

Sete grandes blocos não participaram da folia este ano. Na lista de blocos desistentes estão Cheiro, Yes Bahia Club, Papaléguas, Pirraça, Pagode Total (É o Tchan), Cerveja e Cia e Coruja, entre outros menores

Os motivos alegados pela maioria são a crise econômica e as taxas cobradas por órgãos públicos. Há taxa até para microfone paga à Anatel (Agência Nacional de Telecomunciações), caso alguma banda utilize microfone sem fio.

Um trio como o da Banda Eva, por exemplo, pagou no ano passado o equivalente a R$ 50,3 mil só de impostos: R$ 29,5 mil à prefeitura, R$ 9,2 mil ao governo do Estado e R$ 11,5 mil ao governo Federal. Além do ISS, em 2018, o trio terá que pagar também imposto de 2% em cima do valor recebido pelo patrocínio.

Felipe Panfili/Divulgação

Modelo esgotado

UOL entrevistou especialistas, artistas, jornalistas e órgão oficiais envolvidos na organização do evento e boa parte deles concorda: a desistência desses blocos vai além da crise econômica e das taxas, e pode estar relacionada ao modelo de negócio adotado pela prefeitura de Salvador.

Nos anos 1980, o Carnaval da Bahia desenvolveu um modelo de negócio onde o bloco foi o elemento central, e os artistas eram considerados o “carro-chefe”. Nesse período, a adesão dos foliões deixou de ser ao bloco e passou a ser fundamentalmente aos artistas.

“É o modelo do axé, um modelo que está se esgotando, entrando em limitação, e se agravando por causa da crise [econômica], onde os blocos já estão com dificuldades para sair. Muitos deles já não conseguem vender abadá. As pessoas preferem o camarote e andar como ‘pipoqueiro’, em blocos sem corda”, avalia Paulo Miguez, vice-reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e especialista no estudo sobre o Carnaval

Os blocos [comerciais] têm deixado a importância que tinham e o negócio [está] migrando para os camarotes e trios independentes, especialmente aqueles que possuem grandes atrações.

Como consequência de impactos sobre a festa, o professor cita “a diminuição da presença do bloco-empresa”. Ele prevê ainda que “os blocos mais tradicionais e de caráter comunitário devem voltar a ter uma presença maior e o negócio vai migrar das cordas dos blocos para as varandas e os salões dos camarotes”.

Pedro Costa, Presidente do Conselho Municipal do Carnaval (Comcar), admite as transformações, mas tem um discurso mais brando. “O Carnaval é uma festa muito dinâmica, então a todo tempo ele tem uma auto-regulação”. Para ele, o que estão querendo afirmar como crise é que alguns blocos carnavalescos, notadamente blocos alternativos da Barra, deixaram de sair durante cinco ou seis dias e tiveram que diminuir de tamanho. “A realidade econômica do país não permite mais isso. Botar um bloco é caro, mas todos os grandes blocos com as grandes estrelas estão saindo, só que uma ou duas vezes”, diz.

Posso enumerar algumas distorções, como a fila de blocos, com alguns desfilando à tarde e outros tarde da noite e que ninguém nunca conseguiu mexer, a forma com que prefeitura e governo do Estado buscaram para conseguir apoio do Carnaval, rivalizando com os blocos a captação de recursos, além da mudança que fez com que os artistas passassem a ser mais importantes que os blocos.

João Jorge, presidente do Olodum

Thiago Duran/Agnews

Abaixo as cordas

O debate sobre o que acontece no Carnaval de Salvador é amplo e a discussão, complexa. Muitos falam que a prefeitura tomou o poder financeiro da festa para si, sufocando ainda mais os blocos. No modelo de negócio atual, os patrocinadores repassam o dinheiro à prefeitura, que, por sua vez, como organizadora, decide onde investir -em 2018, foram R$ 55 milhões em investimento público e privado.

A prefeitura tem investido muito nos trios independentes sob a justificativa de “equilibrar e democratizar” o Carnaval de Salvador. Um exemplo de trio independente e patrocinado pelo órgão municipal é a cantora Carla Perez, que desfilou sem cordas no domingo, no centro da cidade. Bell Marques e Claudia Leitte também receberam apoio do governo do Estado.

Em contrapartida, esses patrocinadores têm o direito de exibir a sua marca ao longo de todos os circuitos e têm ainda a exclusividade na venda de mercadorias feita pelos ambulantes, como é o caso da Skol, cervejaria oficial do Carnaval local neste ano.

Os efeitos de tudo isso sobre a festa são graves: houve a diminuição no valor pago por patrocinadores aos blocos, e a prefeitura e o governo estadual passaram a investir mais dinheiro nos trios sem cordas.

Nos bastidores fala-se, por exemplo, que Claudia Leitte teria recebido do governo R$ 500 mil para desfilar sem cordas. Os artistas da Bahia passaram a depender mais do dinheiro público, e muitos blocos se recusam a desfilar porque já não conseguem fechar a conta apenas com a vendas dos abadás.

Ao UOL, uma fonte que pediu para não se identificar, avaliou o momento atual da festa soteropolitana. “Os empresários precisam também se reinventar e eles devem entender isso”, disse ela à reportagem.

Thiago Duran/Agnews

A “camarotização” do Carnaval

O Carnaval de Salvador tem ao menos nove grandes camarotes, espalhados principalmente pelos circuitos Barra-Ondina (Dodô) e Campo Grande (Osmar). Eles oferecem ao folião serviços como drinks diversos, pista para dança, DJs, shows exclusivos e etc. O valor da entrada pode variar de R$ 450 a R$ 2.000 por noite.

Em conversa com o UOL às vésperas do início da folia baiana, Joaquim Nery, presidente da Central do Carnaval, que comercializa abadás tanto de blocos quanto de camarotes, afirmou que mais de 100 mil ingressos para camarotes já tinham sido vendidos, quase 10 mil a mais que no ano anterior.

De acordo com Clínio Bastos, presidente da Associação Baiana de Camarotes (ABC), cada camarote recebe em média cerca de 3.000 foliões por noite, superando a quantidade de abadás dos blocos de rua — boa parte deles mal consegue vender mais do que 2.500 abadás.

A conclusão que tanto prefeitura quanto empresários e artistas chegam é que está havendo a mudança de comportamento do folião, que, cada vez mais, tem migrado dos blocos com cordas para o conforto dos camarotes, considerados o novo “filé mignon” do negócio. Existem outros fatores, claro, mas a “camarotização” do Carnaval de Salvador também é apontada por especialistas como um dos problemas que levaram blocos comerciais à crise.

Todos os envolvidos já estão cientes do problema e discutem alternativas para o futuro da festa. André Silveira, executivo da Banda Eva, por exemplo, sugere a realização de um Carnaval indoor, ou seja, em ambientes fechados, como já acontece no CarNatal, em Natal (RN). O UOL apurou que o Camarote Salvador, o maior da folia baiana, pode mudar em 2019 para o Estádio Fonte Nova, com capacidade para 50 mil pessoas.

Thiago Duran/Agnews

Por dentro de um camarote

Os camarotes espalhados pelo Dodô atendem a diversos públicos. Enquanto o Expresso 2222 aborda a cultura baiana mais tradicional, o Camarote Salvador -o mais caro entre todos, com ingressos que chegam a R$ 1890 por dia– é a balada mais “top” que você poderá ir na cidade.

Ao entrar pela primeira vez em uma dessas áreas vips, o que impressiona é o tamanho e a quantidade de gente que cabe dentro do espaço. Escadas e mais escadas levam o folião a um labirinto onde o que é sempre visível é um bar oferecendo cerveja, vodca, uísque, energético, refrigerante e água.

O público vem pronto para arranjar um pretendente ou apenas pegar geral, especialmente nos camarotes-baladinhas. Enquanto as mulheres optam pelos saltos altos (e conseguem passar por um trecho do Circuito Dodô desse jeito), saia justa e abadás personalizados bem cavados para mostrar a marquinha de sol que pegou horas antes de curtir a balada, os homens vão de sapatênis, camiseta com gola em “V” e uma barba rala no estilo “acordei e vim”.

Cada música é acompanhada de gritos e copos para o alto. O grupo mais desanimado, por incrível que pareça, é que o fica observando a folia no Circuito Barra-Ondina, que está mais preocupado em conversar com o amigo ou pegar uma bebida e beliscar algo do que observar o Carnaval de rua. Na parte superior dos camarotes fica o palco principal, onde passaram Wesley Safadão, Carlinhos Brown, Claudia Leitte, Psirico, Harmonia do Samba, Léo Santana e outros nomes da música brasileira entre quinta (08) e terça (13).

O clima de balada e as batidas do funk fazem você nem lembrar que está na cidade do axé. E diversos famosos rodam pelo espaço especial, o que é um atrativo para você que quer dar um gás no seu Instagram.

Junior Martins saiu de Brasília com destino a Salvador. Para curtir os seis dias do Carnaval ao lado da esposa, o servidor público desembolsou quase R$ 15 mil entre passagens, hotel e camarotes. Apesar do custo elevado, Junior garante que o investimento vale a pena. “O atendimento [do camarote] é diferenciado, você tem tudo ao seu dispor, é um conforto muito bom”.

Além de trazer shows exclusivos, os camarotes espalhados pela Barra-Ondina também trabalham com as duas palavrinhas mágicas do momento: “open bar”. É só chegar e pegar o que quiser. Tudo isso por uma média de R$ 900 por noite. Já lá embaixo, quem está acompanhando os trios sem cordas colado com a multidão não tem o menor conforto. É um empurra-empurra daqui, uma sujeirada no chão, um desentendimento que rola ao seu lado direito e aquele calorão da Bahia.

Mas é ruim? Nem pensar. “Isso aqui é uma festa, assim que é bom”, garante uma foliona enquanto se apertava entre as amigas para passar. Uma opção que não fica nem lá nem cá são os blocos pagos, que comercializam abadás. Variando entre R$ 100 e R$ 700, o bloco garante um conforto maior perto do trio rodeado por cordas, e ainda tem suas vantagens.

“Parece que no camarote ninguém se diverte, só fica vendo os outros se divertirem. Por isso eu prefiro o bloco”, diz Manuel Andrade, que sai de Pernambuco com destino ao Carnaval de Salvador há 12 anos. Já Claudio Moura sempre garantiu seu lugarzinho entre os vips do Circuito Dodô, mas desta vez teve que se render ao bloco pelo preço dos camarotes. “Um camarote está saindo mais de R$ 1000, aí já fica muito caro”.

 

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